Vanesa del Rey por
Deb Dorneles
em 24 de setembro de 2014

Minha história com a Vanesa Del Rey começou na Charlotte ComicCon deste ano, na Carolina do Norte, nos EUA. Essa convenção é bastante querida e conhecida por ter apenas Histórias em Quadrinhos como tema, nada de séries e filmes, o que para um grande fã de quadrinhos é uma ótima oportunidade para conhecer seus ídolos, comprar arte original, rechear a mala com sketchbooks e trocar ideias com outros adoradores dessa arte. Os profissionais também têm um carinho especial por ela, já que a organização recebe-os muito bem, os fãs são superatenciosos, os lucros são ótimos e a lista de convidados se destaca por grandes nomes. Então é fácil estar entre amigos e ter ótimas noites após dias longos de trabalho.

E foi no primeiro dia de con, que em um intervalo rapidinho entre estar assessorando o Rafael Albuquerque e dar uma circulada para conhecer novos talentos e cumprimentar os big shots dos quadrinhos – nesse evento conheci pessoalmente o incrível Bill Sienkiewicz! – consegui comprar cafés e bagels e retornar para nosso headquarter.

Tinha um latte extra, e decidi oferecer para os artistas que dividiam a área conosco, um costume excelente para fazer novos amigos. Jeff Stokely não quis, Rafa prefere café preto, até que uma morena, baixinha, mas com uma voz potente, me disse, em Inglês, que aceitava.

Mulheres, sexo, pele, uma pitada de violência! Foi amor à primeira vista, seguido de uma série de elogios babões.

Foi então que, sorrindo e dizendo “You’re welcome“, tive o primeiro contato com a arte da Vane, na mesa que ela ocupava. E OH MY GOD… Mulheres, sexo, pele, uma pitada de violência! Foi amor à primeira vista, seguido de uma série de elogios babões. Ainda ficamos convivendo nos dias seguintes, batendo papo, dividindo cervejas e dando risadas juntas, e tive certeza que ela não só é uma grande artista, como também é uma grande mulher.

Huntress Wizard por Vanesa del Rey.

Huntress Wizard por Vanesa del Rey.

Quis trazer uma conversa com ela para vocês, assim como mostras de sua arte, que mescla diversas técnicas e estilos, para que também conheçam e compartilhem dessa admiração. O trabalho de quadrinhos dela pode ser visto na BOOM! Studios mas, aqui no Stout Club, nos já sabemos que ela vai ir ainda mais longe!

A entrevista

Vanesa, você nasceu em Cuba e passou a maior parte da sua vida lá. Como foi a sua infância e adolescência? Naquele tempo você já tinha interesse por arte ou foi algo que surgiu mais tarde?

Eu cresci em uma casa muito artística. Minha avó era pintora e me encorajou desde cedo. Ela foi a minha primeira professora. Após, com doze anos eu iniciei aulas com um jovem pintor que morava próximo. Foi ótimo! Eu tive uma formação acadêmica durante toda a minha adolescência. Eu não estava interessada em nada mais além de arte.

Eu cresci em uma casa muito artística. Minha avó era pintora e me encorajou desde cedo.

Atualmente, você vive em Miami. Qual foi a sua motivação de ir para os EUA e como foi esta transição? Você se adaptou bem ao novo país?

Meu pai foi a razão da minha mudança para os EUA. Ele tomou a decisão de deixar Cuba e levar a sua família. A minha motivação veio da influência que a cultura Norte Americana tem em Cuba, mesmo sendo reprimida por lá.

A adaptação ao novo país definitivamente não foi fácil, levei alguns anos para me acostumar com o novo lugar e nova língua. Foi uma mudança assustadora para mim. Mas eu consegui focar no que era importante, com muita ajuda da minha família. Eles foram um suporte incrível.

Silver Lolita.

Silver Lolita.

Nós ficamos especialmente impressionados com as incríveis cores, texturas e mistura de materiais no seu trabalho. Nós sabemos que você esteve em uma Escola de Artes Visuais. Onde você estudou e qual é a vantagem do estudo formal no trabalho que você desenvolve hoje? Existe algum material de que você gosta mais?

Eu estive na Escuela Nacional de Bellas Artes, em Cuba, desde os meus quatorze anos, até nos mudarmos para os EUA, quando eu tinha dezenove anos. Continuei na Universidade de Miami, onde eu tive algumas classes de arte, mas nada especializado. E finalizei com um diploma de ilustração na Ringling College of Art and Design, aqui na Flórida.

Eu acho que a educação formal me deu habilidades que podem ser utilizadas para qualquer tipo de desafio criativo. Ser um bom desenhista me deu a liberdade de experimentar e quebrar regras, eu aprendi a criar algo novo e excitante.

Eu não tenho uma preferência de material! Gosto de usar um pouco de tudo quando tenho a chance.

Mata Adas.

Mata Adas.

Como você entrou no mercado profissional com a sua formação em Artes Visuais? Você se lembra do primeiro trabalho que lhe trouxe algum retorno financeiro?

Eu fui contratada logo depois que me formei! Eu me inscrevi para uma vaga como concept artist em um estúdio de animação em Shreveport, Louisiana. Mas a primeira vez que eu recebi dinheiro pelo o meu trabalho foi quando eu vendi alguns nus para uma loja de quadros próximo da minha casa, em Miami. Os quadros eram grandes desenhos a carvão em papel colorido. Poucos venderam, haha!

Eu sinto que fazer quadrinhos é um desafio para qualquer sexo, pois consome muito tempo e é mentalmente estressante.

Você é conhecida no universo das histórias em quadrinhos pelo trabalho que você faz na Boom! Studios. Como começou o seu interesse em desenhar quadrinhos? Esta ainda é uma área dominada por homens, você sente algum desafio ou tratamento diferente por ser uma mulher?

Eu adquiri o interesse por quadrinhos através de um amigo de escola em Cuba. Ele me mostrou principalmente o trabalho de Simon Bisley e revistas Heavy Metal. Mais tarde, eu tive George Pratt como professor e fiz mais algumas aulas de quadrinhos com ele, na Ringling.

Eu sinto que fazer quadrinhos é um desafio para qualquer sexo, pois consome muito tempo e é mentalmente estressante. Eu não sinto que eu tenho sido tratada de forma diferente, mas se eu tiver, talvez seja porque o meu trabalho fala por si.

Europa

Europa

Nós acabamos de pegar o seu Art Book, Lovely Ladies, na última Heroes Con. Nós amamos a fortes, sensuais e eletrizantes figuras femininas que você faz! Este é seu trabalho autoral? Elas são inspiradas em modelos reais, baseadas em experiências ou apenas saem naturalmente?

O Lovely Ladies foi um sketchbook meio colaborativo com um ilustrador chamado Eric Bonhomme, que eu conheço de Miami. O livro é composto de warm up doodles e desenhos randômicos que fomos acumulando. Eles são basicamente feitos de personagens que vem naturalmente. Outros são baseados em filmes e cultura pop.

La Pinta, La Niña y La Santa Maria.

La Pinta, La Niña y La Santa Maria.

Existe alguma pesquisa, processo ou projeto em que você está envolvida neste momento e que gostaria de compartilhar conosco para deixar-nos esperando?

Neste momento eu estou trabalhando no The Empty Man para a Boom! e algumas outras coisas que eu não posso revelar. Eu também tenho um projeto pessoal acontecendo, para um livro de antologia que sairá no próximo ano. É uma história curta e sem falas sobre uma experiência extrema. Eu queria experimentar com abstração e narrativa. Saiu algo muito sensual e sombrio que espero que as pessoas gostem!

Queríamos que você deixasse uma mensagens para todos que gostam de artes e querem transformar a sua paixão em um trabalho profissional. Você é definitivamente uma inspiração! :)

Encare o desafio de aprender coisas novas! E não fique com medo de estragar tudo, ficará melhor na segunda vez… ou na terceira ;)

Mais sobre Vanesa Del Rey

Website: http://vrdelrey.com/