Roger Cruz e Davi Calil por
Rafael Albuquerque
em 16 de julho de 2014

Mesa de lata, cerveja gelada e camaradas batucando uma caixinha de fósforos para puxar o ritmo. É a equação ideal para um bom samba de raiz. No repertório não podem faltar os clássicos de Adoniran Barbosa.

Saudosa Maloca, Samba do Arnesto, Iracema, Trem das Onze, embalam o bate-papo com os compadres Roger Cruz e Davi Calil, que estão lançando o novo álbum Quaisqualigundum.

O livro, inspirado pelas músicas de Adoniran, recria com perfeição o universo do sambista, sem precisar de som.

O Quaisqualigundum, de Roger Cruz e Davi Calil.

O Quaisqualigundum, de Roger Cruz e Davi Calil.

A Entrevista

Falem um pouco mais de Quaisqualigundum e o que inspirou vocês a fazer um livro sobre o Adoniran.

Roger e Davi: O livro não fala exatamente sobre o Adoniran, mas é uma homenagem ao universo que ele criou nas músicas que fazia. Dava pra ver que ele era muito observador e diferente do “sambista clássico”, malandro e tirador de onda. Ele parecia ser mais um expectador daquele universo operário de São Paulo, que contava, do seu jeito, aquelas histórias. Com uma melancolia, mas também com muito bom humor.

Tentamos expandir também as histórias que não estão lá nos discos, algo que fizesse sentido dentro do universo de que ele falava.

Também não traz as músicas quadrinizadas, elas serviram de inspiração para criar as histórias. Tentamos expandir também as histórias que não estão lá nos discos, algo que fizesse sentido dentro do universo de que ele falava.

O livro é uma homenagem ao universo que Adoniran criou nas suas músicas.

O livro é uma homenagem ao universo que Adoniran criou nas suas músicas.

E qual a importância da música dele para vocês? O que levou vocês a escolherem este sambista, especificamente, como tema do livro?

Roger: O Adoniran eu conheço desde muito moleque. Lembro de minha mãe ouvindo no rádio, e desde aquela época, me relaciono muito com os personagens das músicas. Sempre gostei desse jeito mais simples e direto dele falar, e recentemente, ouvindo seus discos de novo, comecei a me perguntar: “Quem são esses personagens? De onde eles vieram? Por quê o Arnesto deu o bolo no pessoal?” Foi aí que comecei a escrever a primeira história.

Davi: Eu sempre achei legal o fato de que, mesmo não sendo o “malandrão”, ele era muito esperto, muito observador. Ele percebia aquelas pequenas coisinhas ao redor, que ninguém mais via. De certa maneira, a relação que tenho com ele é a mesma que tenho com meus quadrinistas favoritos. Ele fazia na música a mesma coisa que o Will Eisner, por exemplo, fazia nos quadrinhos.

Vocês escolheram quatro músicas como inspiração para as histórias. Quais são elas?

Roger e Davi: Uma das coisas que acho mais legal na obra do Adoniran é que ele faz dois tipos de samba: Alguns mais engraçados, outros mais tristes e melancólicos. Para dosar, escolhemos duas de cada. Então o livro tem quatro histórias, interligadas, inspiradas nas músicas Um Samba no Bexiga, Saudosa Maloca, O Samba do Arnesto e Apaga o Fogo Mané.

O processo entre os dois autores.

O processo entre os dois autores.

E mesmo para vocês, caras que estão no mercado há muito tempo, esta foi uma experiência inédita, de certa forma; já que é a primeira vez que o Roger assina apenas como roteirista, e o Davi somente como desenhista. Como foi desenvolver esse trabalho juntos?

Roger: A minha ideia, no início, era escrever e desenhar tudo, mas percebi que não teria como fazer todo o trabalho sozinho. Convidar o Davi acabou sendo uma escolha óbvia, por que além de sermos amigos há muitos anos, eu sabia que ele gostava das músicas do Adoniran tanto quanto eu. Foi aí que decidi assinar este trabalho apenas como roteirista.

Davi: Quando o Roger me convidou, uma das coisas que mais me chamou a atenção, foi trabalhar em histórias criadas a partir do universo que Adoniran criou, muito mais do que em uma simples biografia sobre ele. A biografia dele você pode encontrar por aí, já escrita. Agora, os personagens? Eles só existem nas músicas. Poder criar em cima disso é muito mais interessante.

Roger: Acho que a coisa só aconteceu por sermos mesmo muito amigos, e termos esse carinho pelas músicas. Tanto que, desde as histórias até a arte, o processo foi todo em conjunto. Muito colaborativo.

Ele é um livro sobre periferia, sobre música, porque essa é a cultura que vivemos todos os dias.

Este é um quadrinho que trata de histórias bem brasileiras, contadas por um músico popular, e tudo isso ficou muito autêntico. Vocês acham que os autores brasileiros estão se sentindo mais confortáveis para falar do Brasil em suas histórias?

Roger: Eu consigo ver em Quaisqualigundum um paralelo com o que eu fiz em Xampu. Ele é um livro sobre periferia, sobre música, porque essa é a cultura que vivemos todos os dias.

Davi: Acho que uma das coisas que ajudou a deixar a coisa toda autêntica, foi o fato de tudo ter sido feito com muita sinceridade, de coração mesmo. Por curtirmos muito o Adoniran e querermos fazer essa história sobre ele. Acho que fica muito mais fácil para um autor fazer um projeto onde haja esta paixão pelo trabalho, do que ficar pensando em fazer algo para seguir ou não uma tendência.

Fazer independente nos permitiu lançar uma tiragem menor, e viabilizar isso tudo de uma maneira mais tranquila.

O livro está saindo pelo selo independente Dead Hamster, composto por outros grandes nomes e que vem lançando algumas das melhores HQs dos últimos anos aqui no Brasil. Qual a diferença entre lançar um livro por uma editora e lançar de forma independente?

Roger e Davi: Uma das coisas mais legais de fazer parte de um coletivo é poder lançar as coisas do seu jeito. A gente troca muita ideia mesmo, e cada um tenta fazer o seu melhor, à sua maneira. Isso já dá uma liberdade muito maior na hora de lançar um livro. Neste caso, contamos com o apoio do Proac, para financiar o projeto, que inclui pagar direitos autorais para uso do nome do Adoniran, entre outras coisas. Originalmente, lançaríamos por uma editora, mas essa parte de direitos autorais, exige muita burocracia e, às vezes, um custo alto demais. Para uma editora se comprometer com tudo isso, ela precisaria fazer uma tiragem muito maior, com muito mais risco, e que elevaria muito esse valor de direitos e inviabilizaria o projeto.

Fazer independente nos permitiu lançar uma tiragem menor, e viabilizar isso tudo de uma maneira mais tranquila.

Lançar de maneira independente também dá mais autonomia para o autor. Ele vai ter mais trabalho, é claro, mas também, tem mais controle sobre o resultado e o alcance das coisas. Você pode supervisionar o acabamento, vai saber quantas revistas estão em cada loja, vai cuidar de todo o processo de divulgação, via redes sociais, falar com jornalistas. No final, acaba valendo a pena pra gente.

Sequência de uma das histórias do livro.

Sequência de uma das histórias do livro.

O que vocês pensam de crowdfundings para viabilizar projetos de HQs? Acaba sendo uma outra alternativa às editoras?

Davi: Acho que de qualquer maneira, é importante o autor ter uma presença na cena de quadrinhos. Não adianta nada fazer um puta livro, e não promover, não ir em eventos, não divulgar. Esse cara vai acabar tendo prejuízo se for se auto-publicar. O crowdfunding acaba funcionando, para o autor, como uma pré-venda, como algo que viabiliza a criação do projeto. Mas, mesmo que ele seja bem sucedido lá, ele vai ter que vender os livros depois. Essa presença do autor é fundamental para que o livro alcance o maior número de pessoas possível.

Vocês pensam em lançar seus projetos autorais fora do Brasil também?

Roger: Acho que isso acaba sendo uma segunda etapa. Minha ideia é desenvolver meus próximos trabalhos aqui para o Brasil, talvez via financiamento coletivo, mas acho que publicar isso no exterior pode ser muito legal. Umas das minhas maiores influências são os irmãos Hernandez, que publicam material autoral lá nos EUA há muitos anos. Eu gostaria muito de ver meu trabalho autoral saindo por lá também. Se for o projeto certo, e a editora certa, não vejo porque não.

Davi: O Quaisqualigundum, por ser sobre um cara daqui, com referências muito locais, talvez seja difícil de adaptar para outra cultura. Tem muitos trejeitos, muitas maneiras de falar, que se perderiam em outra língua. Mas tenho outras ideias que conseguiria ver adaptadas numa boa para outros países, mas não dá para deixar de ver uma empolgação nítida do pessoal em produzir suas coisas. O Gustavo Duarte, por exemplo, está publicando o Monstros! Pela Dark Horse. O Fábio Moon e o Gabriel Bá, fizeram um puta sucesso com o Daytripper lá fora também, então, parece que existe um movimento em aceitar coisas daqui no exterior.

Acho que quando tiver um projeto legal, que seja relevante no mercado internacional, gostaria muito de publicar lá também.

Serviço

Lançamento da HQ Quaisqualigundum!
19 de julho, sábado, às 18h, na Quanta Academia de Artes.
Mais informações na página do evento.

Compre o livro!
Ele já está à venda, online, na Ugra Press.

Mais sobre Roger Cruz

Website: http://www.rogercruzbr.blogspot.com.br/

Mais sobre Davi Calil

Website: http://blogdoklil.blogspot.com/