Rodolfo Santullo e Leandro Fernandez por
Rafael Albuquerque
em 22 de setembro de 2015

Há algumas semanas atrás, tivemos a honra de receber os criadores de Far South para o lançamento do livro durante a ComicCON RS. Entre churrascos, parrilladas e algumas cervejas, trocamos impressões sobre os quadrinhos na Agentina, Uruguai, Brasil e também no mundo.

É fantástico quando descobrimos que nossos irmãos latino-americanos tem uma visão tão lúcida e mágica sobre a arte que nos une. Confira a entrevista.

A entrevista


Rodolfo, pode falar um pouco da tua carreira como roteirista? E o  que te deixou mais próximo dos quadrinhos?

Rodolfo: Eu escrevo desde muito cedo e em algum momento, no final da minha adolescência, me dei conta que eu gostava tanto de quadrinhos como de contos e romances. Então por que não experimentar escrever roteiros de quadrinhos? E comecei com uma mini-série – que nunca ficou pronta, hahaha. Tive muita sorte desde o princípio e pude publicar e mostrar o meu trabalho, o que levou que um roteiro seguisse o outro. E a partir de 2008, com a publicação dos “Últimos dias do Graf Spee”, a coisa ficou clara: eu iria seguir escrevendo roteiros de quadrinhos para sempre. Por sorte aconteceu aquilo de que o desejo e a realidade coincidiram e, mesmo que eu siga escrevendo outras coisas como contos, novelas e roteiros de cinema, minha ocupação principal é a produção de roteiros para quadrinhos.

Rodolfo, como é o mercado de quadrinhos no Uruguai atualmente? E quais são os principais talentos entre os seus conterrâneos que poderias citar?

Rodolfo: Por sorte estamos no que acredito ser o melhor momento da história do mercado uruguaio de quadrinhos. Foram 15 anos de produção ininterrupta que resultou, em todo este tempo, em muitos livros bons. Correndo o risco de ser injusto ou esquecido com meus colegas locais, vou destacar alguns: Matías Bergara, creio que é o melhor desenhista nacional no momento, e seu sucesso internacional realmente comprova isto. Gosto muito do trabalho de Tunda Prada, que no ano passado editou um grande livro chamado “7 Historias”. O traço claro do floridense Guillermo Hansz também me encanta. E, entre os artistas mais novos, figuram os irmãos Silva. Também me parece que existem cada vez mais bons roteiristas no Uruguai. O trabalho de Pablo “Roy” Leguisamo é muito bom, assim como o de Nicolás Peruzzo. Existem muitos e muito bons, por sorte.

Leo, você começou a sua carreira como assistente de Eduardo Risso e isto é uma prática muito comum entre os quadrinistas argentinos. Você pode falar um pouco da relação mestre/aprendiz e o que aprendeu nos seus dias como assistente?

Leandro: Claro… esta foi uma experiência muito enriquecedora na minha carreira e é algo que recomendo, sobretudo para aqueles artistas que estão apenas começando a se envolver com o mundo profissional. Como você falou, isto é algo muito comum entre os quadrinistas argentinos, o que cria uma relação interessante entre as diferentes gerações de artistas.

Leandro foi aprendiz de Eduardo Risso, artista da premiada 100 balas.

Leandro foi aprendiz de Eduardo Risso, artista da premiada 100 balas.

Posso dizer que foi naqueles dias como assistente que realmente enfrentei o cotidiano do trabalho com quadrinhos. Até aquele momento eu só desenhava quando tinha tempo e vontade. Porém, quando comecei a trabalhar diariamente, com prazos apertados, tendo vontade ou não, foi quando comecei a me sentir comprometido com a profissão e aprimorar minhas técnicas. Também, falando de tempo, comecei a trabalhar mais horas diretamente com quadrinhos. Foi aí que senti que eu realmente estava aprendendo muito.

Me entusiasmava muito trabalhar para alguém que eu admirava desde muito tempo.

Com Eduardo Risso, entendi como resolver coisas complexas de forma mais prática. Corrigi imperfeições no meu desenho, e aprendi muito de narrativa e do uso de branco e preto. Tornar a histórias interessante para o leitor. Ver como um profissional administra os seus horários e cumpre os seus compromissos, e sobre tudo, tive a oportunidade de conhecer alguém que tem uma visão muito semelhante a minha… gostávamos das mesmas coisas. Então, foi muito interessante trabalhar para alguém que eu admirava desde muito tempo, quando lia seus quadrinhos no Editorial Columba, lá pelos anos 80.

Foi uma boa fase, muito intensa, e um passo fundamental na minha carreira… me sinto muito agradecido de ter passado por tudo isto.

Leo, tens uma carreira muito sólida nos EUA, trabalhando com roteiristas famosos como Greg Rucka, Garth Ennis, Brian Wood e Peter Milligan mas, foi somente com Far South que você publicou o seu primeiro trabalho para o mercado sul-americano. Qual a diferença desta colaboração com Rodolfo e teus projetos para o exterior? E por que que isto saiu somente agora?

Leandro: Eu pertenço a uma geração de desenhistas que começou a trabalhar na década de 1990. Era uma fase em que havia uma grande crise no mercado de quadrinhos na Argentina. Estava acabando aquilo que havia sido uma grande indústria cultural durante tantos anos, e que havia sido tão prolífera. Por isso que tantos artistas como eu começaram a buscar trabalho no exterior, primeiro na Itália, depois no EUA.

Desde o início tive muita sorte de trabalhar com grandes escritores. É algo que sigo fazendo, e gosto muito, não só pelo resultado final de ter boas histórias, mas também porque quanto mais profissional é um roteirista, mais fácil é trabalhar em equipe.

A arte de Leandro Fernandez na elogiada Punisher MAX.

A arte de Leandro Fernandez na elogiada Punisher MAX.

Quando esses trabalhos chegavam na Argentina eram apenas através de reedições do material da Marvel e DC. E foi então que senti uma verdadeira necessidade pessoal de fazer algo que seja natural de onde eu sou. Que os meus amigos possam ler, minha família, meus vizinhos e lhes seja familiar.

É por isto que eu e Rodolfo, a quem eu já admirava muito, decidimos criar o que finalmente viro o Far South. No começo com histórias curtas e fechadas, até que montamos todo o livro.

Somente começamos a fazer algo pelo gosto pessoal de faze-lo.

Quando Eduardo Risso viu o que estávamos fazendo, logo se ofereceu para publicá-lo, já que ele tem uma editora na Argentina – a Puro Comic. Mas o projeto simplesmente aconteceu porque tínhamos uma vontade pessoal de faze-lo.

Agora, Far South foi publicado no Brasil, e isto é uma enorme alegria para nós. O projeto segue crescendo e temos planos de continua-lo.

O que nos parece interessante é que Far South conta uma história em um momento particular, mas em uma zona imprecisa, que por suas características pode ser algum lugar nos pampas argentinos, no Uruguai, ou tranquilamente no sul do Brasil, com uma geografia igual, construções similares e uma cultura muito parecida, surgida da relação entre imigrantes, sobretudo italianos, campesinos, indígenas e gaúchos. É por isto que tem muito mais a ver com a nossa identidade como região do que como países em particular.

De onde surgiu a idéia para Far South? E como pensam que uma história sobre uma região com tantas particularidades pode chegar a leitores de qualquer parte?

Leandro: Rodolfo já tinha uma história curta escrita (Las Reglas de Montoya), e tinha em mente uma série que continuaria em condições similares. Eu já tinha a idéia de contar algo como um Faroeste na América do Sul, então começamos a trabalhar juntos nisto, e a medida que íamos desenvolvendo o projeto, ele foi tomando forma por si próprio.

O nome do livro também é uma explicação do conteúdo, e também um chamado, um convite, para quem quiser ver, porque é um jogo de palavras que pede sentido se se entende a partir do hemisfério norte do mundo. “Far South” é uma derivação de “Far West”… nos referimos a uma história do oeste selvagem, porém no sul do mundo.

Gaúchos retratados em Far South.

Gaúchos retratados em Far South.

O gênero de Faroeste não deixa de ser um gênero artificial, construído para contar histórias de ação em filmes, livros, quadrinhos, etc… se ele tem uma forte base na realidade, tem muito de ficção. Nem tudo era do modo que nos contam os filmes, há muitos mitos nestas histórias. E em nossa geografia existiam muitos destes elementos que tornava possível a construção de mitos similares… no lugar dos “cowboys” estavam os gaúchos, ao invés de “saloons” haviam “bolichos”… grandes extensões de terras selvagens e despovoadas. Indígenas. Cavalos. Países por construir. E países que representavam uma grande promessa de prosperidade econômica, sobre tudo na perspectiva européia. Políticos corruptos aproveitando esta situação. Prostitutas. E um elemento fundamental: os bandidos.

Nesta região existiram bandidos rurais que tinham importância no imaginário popular por roubar, sobretudo, os grandes inimigos das classes baixas, que eram os grandes capitalistas, os poderosos. Muitos destes bandidos transcenderam a vida real ao ponto de se converterem em lendas… viraram heróis populares. Situamos a história em um período no tempo, na década de 1940, porque mesmo não sendo um momento representativo do que poderia ser um faroeste, foi uma época muito controversa na história mundial, e o período exato para relatar a situação de um bandido rural em particular. Por outro lado, como somos amantes do gênero “noir”, queríamos utilizar alguns destes recursos narrativos para contar esta história.

Assim como nos faroestes, bandidos são um elemento fundamental em Far South.

Assim como nos faroestes, bandidos são um elemento fundamental em Far South.

Eu creio que Far South pode interessar a leitores de qualquer parte, porque estamos mostrando um mundo desconhecido para muitos, mas que realmente existiu. A história é uma ficção, porém as situações são realistas. E para um leitor de fora, pode ser interessante entender como eram aqueles tempos.

Se as pessoas se divertirem a metade do que nós nos divertimos fazendo este livro, o resultado já será mais do que satisfatório.

 

Serviço

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Far South

Rodolfo Santullo e Leandro Fernandez.
Prefácio por Eduardo Risso.
Stout Club

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