Matteo Scalera por
Rafael Albuquerque
em 6 de novembro de 2014

Dono de um traço rápido, com splatters, aguadas e muito movimento, Matteo Scalera estreou profissionalmente em 2008. Mas, desde então, vem se destacando em títulos da Marvel como Deadpool, Secret Avengers e Indestructible Hulk, além de capas para títulos da DC Comics.

Seu trabalho mais recente, Black Science, em parceria com Rick Remender, vem recebendo ótimas críticas e apresenta artes simplesmente arrasadoras.

Batemos um papo com este italiano de Parma, e desvendamos um pouco mais sobre o seu trabalho, preferências e, claro, seu senso de humor.

A entrevista

Você estreou profissionalmente em 2008, com Hyperkinetic, pela Image. Antes disso, você já trabalhava com arte? Conte-nos como você iniciou nos quadrinhos.

Antes de Hyperkinetic eu costumava trabalhar para empresas italianas. Pequenas aparições aqui e lá, na maioria coisas para crianças, como ilustrações para jogos e algumas histórias em quadrinhos para revistas infantis. Até que Howard Shum, o escritor de Hyperkinetic, viu meu trabalho na Internet e me contatou perguntando se eu estava interessado em propor um novo projeto para a Image, e foi ai que tudo começou.

Página de Deadpool. © Marvel Comics

Página de Deadpool. © Marvel Comics

Você fez um trabalho impressionante com títulos como Deadpool, Secret Avengers, Indestructible Hulk, Daradevil, Wolverine & The X-Men e, recentemente, Black Science. Existe algum personagem, ou história, que você adoraria ilustrar neste momento?

Na realidade eu acho que Black Science é a que melhor se encaixa com o meu estilo, principalmente porque eu criei os personagens. Além disto, Black Science é sobre pessoas viajando pelas mais estranhas dimensões, cheias de criaturas e ambientes bizarros e isto é muito bom para um cara como eu, que tem a tendência de ficar entediado quando preciso desenhar a mesma coisa, várias vezes. Agora mesmo, estou trabalhando na 12º edição do que já é a minha maior sequência em um mesmo título – eu nunca havia ficado em uma série por mais de 8 edições antes de Black Science – e eu ainda estou me divertindo, o que é bastante surpreendente para mim.

Página 1 de Black Science. © Image Comics

Página 1 de Black Science. © Image Comics

Você já trabalhou com alguns grandes escritores, como Scott Snyder e Rick Remender. Existe algum escritor em específico que você gostaria de trabalhar junto no futuro?

Recentemente, finalizei uma série sobre vingança, em seis edições, chamada Dead Body Road, para a editora Skybound. Robert Kirkman é o chefe lá. Quando Black Science estiver pronto, eu adoraria trabalhar em um novo projeto com ele.

Artistas estão sempre olhando o trabalho de outros artistas, especialmente os mais antigos, que ajudaram a moldar a linguagem dos quadrinhos. Qual o seu artista favorito no mundo dos quadrinhos? E por que ele é o favorito?

Falando de artistas do passado, meus favoritos são, sem dúvida alguma, Jorge Zaffino, Sergio Toppi e Alberto Breccia. Se eu tivesse que escolher apenas um, seria definitivamente o Zaffino. Eu tenho uma página original dele, do Punisher – Assassin’s Guild, pendurada no meu estúdio, e eu simplesmente amo ela.

Sobre artistas da atualidade, eu poderia listar, no mínimo, uma centena. Mas, vou nomear uma dupla que vem sendo uma grande inspiração na minha carreira e que também tenho a honra de chamar eles de amigos. Estes dois são Eric Canete e Sean Murphy. Eles me ajudaram muito e me deram dicas valiosas. Ah, também tem um brasileiro, eu acho que Albuel Rafaquerque, ou algo parecido.

Elektra por Matteo Scalera. © Marvel Comics

Elektra por Matteo Scalera. © Marvel Comics

Você está lendo algo? Não precisa ser quadrinhos…

Infelizmente, no momento não estou lendo livros “reais”, mesmo se eu quisesse, só iria encontrar forças para ler alguma coisa no futuro. Mas, quando eu for, eu gostaria de ler Kingdom of Fife, by Irvine Welsh.

De quadrinhos, eu estou lendo uma série fantástica da Image, chamada Black Science – é, isto é o quanto sou egocêntrico.

Brincadeiras a parte, o que eu tenho agora mesmo na minha mesa é Saga, Legend of Seawolf de Riff Reb, The Nao of Brown de Glyn Dillon e Portugal de Cyril Pedrosa. Mas, sendo bem honesto, eu tenho uma grande pilha de livros ainda esperando para serem lidos…

Você gosta de música, certo? Você escuta música enquanto trabalha? Se sim, que tipo(s) de música?

Ah sim, eu sou um ex-baterista, sou fã de metal, metal-core, stoner, sludge, doom, etc… Eu amo Down, Pantera, Lamb of God, Priestess, Mastodon, The Sword, Boris, The Mighty Nimbus, Red Fang, Suicide Silence, Testament, The Haunted, Slayer, Grip Inc., e muito, muito mais.

Eu costumava escutar um monte de bandas diferentes no passado, mas agora eu estou focado nas que eu conheço melhor e fico escutando os mesmos álbuns várias vezes, repetidamente. E, sinceramente, eu não sei o porque. Provavelmente é porque eu sou estranho, hahaha…

Eu escuto música enquanto eu dirijo, não enquanto trabalho. Quando estou trabalhando, eu geralmente escuto talk shows de política italiana, podcasts de comediantes norte-americanos ou stand-ups – sou um grande fã de Bill Burr e Louis C.K. Também acompanho eventos do WWE – adoro o “the Viper” Randy Orton e “The Lunatic French” Dean Ambrose – e eventos de MMA – adoro Cub Swanson, foda-se Conor McGregor!

Desenhar é uma coisa 100% mental, não existe limite físico para isto…

Se um desenhista de quadrinhos iniciante batesse agora na sua porta e pedisse uma dica de um profissional. Qual seria a sua dica?

Eu falaria para ele que é tudo sobre comprometimento. Desenhar é uma coisa 100% mental, não existe limite físico para isto – bom, a não ser que você não tenha mãos, ou tenha alguma doença em particular que impeça os seus movimentos, óbvio. Tudo diz respeito a sua mente, sobre aprender a como observar o mundo ao redor de você com outros olhos.

E esta mudança não acontece se você não está comprometido com isto. Uma vez que você realiza esta mudança, tudo muda e aparece no seu trabalho. Felizmente, ainda existe meritocracia no mundo dos quadrinhos. Se o seu trabalho tem qualidade, o público verá ele e oportunidades legais virão logo, não tenho dúvidas sobre isto.

The League of Extraordinary Gentlemen por Matteo Scalera. © Vertigo/DC Comics

The League of Extraordinary Gentlemen por Matteo Scalera. © Vertigo/DC Comics

Qual o lado ruim do fazer quadrinhos? E qual o lado bom?

O lado bom é que você desenha para viver, o que é muito legal. Especialmente quando você começa a fazer uma boa grana.

O lado ruim é que quadrinhos, especialmente nos Estados Unidos, é uma “arte rápida”. Você precisa produzir de 20 a 24 páginas por mês, com a melhor qualidade e no menor espaço de tempo e, às vezes, isto significa que você precisa desenhar inclusive quando você não esta afim, mesmo se você estiver doente, porque você não pode perder o seu prazo ou vai desapontar os seus leitores.

Também é difícil fazer planos para o seu dia de trabalho, já que às vezes você leva 2 horas para fazer uma página, e outras vezes leva 6 horas, dependendo da complexidade da página. Então, você pode completar o seu trabalho depois de 6 horas no estúdio ou ficar o dia inteiro na prancheta e, no final do dia, não conseguir fazer o seu trabalho de forma satisfatória, mesmo que você tenha ficado 12 horas direto trabalhando. Bem frustrante.

No meu caso, eu tenho um estúdio na minha casa, o que significa que eu trabalho de pijamas – o que é fantástico. Mas, eu não costumo ver ou falar com outras pessoas – o que não é fantástico.

Mais sobre Matteo Scalera

Website: http://www.matteoscalera.blogspot.com